sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Às Duas Horas




 Eram exatamente uma e quarenta e cinco da tarde. Eu havia acabado de almoçar e me encaminhava para mais uma aula de dança. O cabelo preso em um rabo de cavalo remexia-se de um lado para o outro. A garrafinha de água gelada em minha mão e a sombrinha me acompanhava apenas como prevenção ao dia nublado.
 Havia pego a carteirinha de passe e colocado no bolso do short, sai de casa às pressas e observando o relógio a cada um minuto por estar atrasada. O ponto de ônibus na esquina de casa continha apenas um rapaz e ninguém mais devido ser um dia de sábado.
 O homem olhou-me dos pés a cabeça e voltou a se encostar no poste. Ele revirou os olhos e perguntou:
 - Você sabe se tá passando ônibus hoje?
 - Moço eu não sei, com essa paralisação sai de casa com dúvida.
 Voltei minha atenção à curva por onde todos os veículos passavam. Passou-se uns nove minutos e nenhum ônibus deu as caras.
 Acabei desistindo e pegando a primeira lotação que avistei prometendo a mim mesma que voltaria de ônibus e guardaria ao menos R$ 2,75.
 Fui com a certeza que chegaria na aula no horário. Cinco minutos depois cheguei no ponto próximo à academia de dança praticamente correndo passei pela igreja mal dando importância a ela.
 Cheguei ofegante, cumprimentando meus companheiros e amigos. Passei cerca de duas horas ensaiando todas as coreografias. Quando voltei ao banheiro para retirar a calça de lycra e vestir o short jeans, coloquei as mãos no bolso e não encontrei a carteirinha.
 - Minha Virgem Misericórdia! – Exclamei assustada.
 Revirei a academia por inteiro e ainda coloquei todos os alunos a procurar pela mesma. Procurei pela bolsa, no banheiro e em todos os lugares possíveis.
 O desespero foi tão grande que sai mais cedo voltando pelo mesmo caminho que havia vindo embaixo de chuva. Qualquer papel branco e molhado chamava minha atenção.
 Passei pelo ponto e diante da igreja rezando e pensando na bronca que levaria logo que contasse o acontecido para minha mãe.
 A lembrança de passar uma tarde para recadastrar a carteirinha de ônibus me atormentava.
 Voltei ao ponto de ônibus desapontada e em frente à igreja católica com a sombrinha azul e florida, quase sem efeito, acima de minha cabeça.
 Eu estava orando em voz baixa pedindo que ele tivesse piedade de mim quando chegasse em casa.
 Quando a lotação passou entrei nela conformada com tudo e desanimada. Foi quando olhei para o motorista de idade, com cabelos brancos e calvos. O rosto literalmente me lembrava uma ameixa.
 Era o mesmo motorista que eu havia vindo.
 Meu coração se encheu de alívio no momento em que me virei no acento para ver o mesmo lugar que vim sentada. A carteirinha continuava intacta entre o acento e a porta a ponto de cair.
 Olhei para o céu e falei:
 - Você é muito irônico, quando quer.

'Xoxo Giu Blue
Baseado em histórias reais. kkkkkk

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